quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Uma concha abandonada.


Em 2005, logo depois de assumir a secretaria de cultura em Bragança Paulista, me deparei com uma verba de 580 mil reais vinculadas a construção de uma concha acústica no antigo Bosque dos Eucaliptos,  local que se encontrava abandonado e sem uma única arvore. 
Como a verba era pequena, solicitei ao arquiteto da prefeitura, que procurasse projetos econômicos e que seguissem as tendencias arquitetônicas atuais. 



Vários projetos foram discutidos até que dois deles ficaram na secretaria para discussão e apreciação dos munícipes que frequentavam o local.


O projeto mais votado, tinha segundo a equipe técnica maior facilidade de construção, custos mais baixos e maior possibilidade de uso múltiplo, com dois palcos, camarins fechados, banheiros, fosso para elevador, salas etc. 


No início de 2006 foi realizada a licitação de acordo com o projeto aprovado (por mais de 100 frequentadores constantes da secretaria) e a empresa vencedora deveria começar as obras.


Na assinatura do contrato a empreiteira foi representada pelo Sr, Duarte, conhecido por Brauwn pai do atual secretário Sr. Quique. 
O Sr. Duarte, que já havia trabalhado com seu filho (Quique), no setor financeiro da prefeitura de Piracaia, era muito amigo do proprietário da vencedora da licitação. 


As obras que deveriam começar imediatamente, ainda demoraram um tempo. Na foto prefeito, vice, secretário de cultura, de obras e representante da empreiteira, Sr. Duarte Bronw. 

No inicio de 2007, deixei a secretaria, mas na inauguração em 7 de julho de 2007, fui surpreendido por uma proibição de entrar no recinto. Ainda assim, consegui junto a produção dos Mutantes um crachá, que me dava o direito de entrar. Verifiquei então que o telhado não era acústico, como constava no projeto, não existia fosso para instalação de elevador de equipamentos, o espelho de água não tinha bomba e saída de água, entre outras coisas. 


Sergio Dias e Zelia, após ao show consideraram o palco excelente, tamanho ideal para grandes grupos e equipamentos, só estranharam porque as caixas de som não foram colocadas no palco. Eu também estranhei. Segundo os construtores o concreto não estava curado. Achei estranho, mas como não sou da área me calei. 
O custo da obra era 580 mil reais, deixados, como já falei, pela administração anterior, com o único proposito de se fazer uma concha e naquele local. Tempos depois ouvi dizer que foram dados 2 aditamentos, ou seja, o valor teria aumentado. 

Na semana seguinte, foi a vez dos ratos de Porão usarem o palco, a impressão de João Gordo foi a mesma, Ótimo palco, gostaria de ver isso lotado, disse ele. 
Esses dois shows, eu já tinha deixado certo antes de sair da secretaria. Depois disso o espaço só serviu para apresentações religiosas e moradia de mendigos. Uma parte foi entregue a Liesb.

Como pode ser observado na placa comemorativa de inauguração, que se encontra dentro do prédio, meu nome não consta de nada. Como se não tivesse existido. 

Posteriormente o prefeito manda me entregar um cartão de prata relativo a inauguração da concha, como se isso fosse cessar minha curiosidade a respeito de custos, modificações e qualidade da estrutura. 


Como fui o responsável pelo lançamento político do Sr. Quique, foi meu candidato em 2008 pelo PCdoB, assim que eleito solicitei a ele, que realizasse uma investigação sobre a construção da conha. Existia algo estranho, mas que um vereador, com um simples pedido de informações poderia esclarecer. Eu queria saber sobre os custos, a qualidade, sobre algum perigo eminente, pois não deixaram os Mutantes colocar caixas de som no palco, sei lá, queria informações para ficar mais tranquilo. 
Quique fez um PI (pedido de informações) e eu lhe perguntei qual eram as respostas. Ele me respondeu "deixe quieto". 
O dono da empreiteira me disse, há 3 anos, que já tinha outro planos para "aquilo". O Quique tem um apreço grande pelo empresário, pois esse lhe ajudou muito quando trabalhava na prefeitura de Piracaia, é o que parece. Seu pai era representante do empresário na assinatura do contrato, conforme fotos, e na pedra fundamental. 
Talvez pretendam mesmo dar outro destino a "aquilo", como dizem.
Quanto a praça, estava em terra. Todas as árvores já haviam sido cortadas dois anos antes, o que gerou uma ação do MP na época. 


A arborização do local foi paga por um empresário em cumprimento a um acordo ambiental com o Ministério Público local.

O projeto total do antigo Bosque dos Eucaliptos era baseado no Dragão do Mar, de Fortaleza, Ceará, que pode ser conferido no Google. 

Hoje o local está abandonado. A Secretaria de Cultura não tem capacidade para gerir o local.  

Faltou falarmos sobre a acústica: 
Os teatros de arena, da antiga Grécia eram em formas de conchas para que o som fosse melhor propagado. A partir do século XIX, quando Tesla provou que a corrente alternada era superior a corrente continua e venceu a concorrência nos EUA, usinas hidrelétricas começaram ser construídas para a produção de energia elétrica. A primeira foi em Niagara.  A partir dai criaram-se milhares de equipamentos movidos a eletricidade, entre eles o microfone, as caixas de som e amplificadores. Embora chamemos de "conchas acústicas", os antigos teatros de arena, eles nada mais são que palco para apresentações artísticas. 


Existia no Pacaembu uma famosa "concha", em forma tradicional de concha, já demolida. Não há quem acredite que seu formato seria capaz de ampliar o som, até as arquibancadas do portão de entrada, no lado oposto. Assim também acontece no Centro de Convivência em Campinas, ou no Dragão do Mar em Fortaleza. 

Alguns "conchas pelo mundo":












Logo, nossa "concha" não está distante dos projetos, que existem pelo mundo. Resta fazer o acabamento, obrigar a empreiteira a cumprir o contrato, fazer a segunda fase do projeto, cuidar, promover bons eventos, pois os ruins, não levam ninguém. Conservar a praça, posteriormente construir as salas para oficinas de teatro, música, artes plasticas, exposições, etc. 
Para que isso ocorra é necessário competência. Saber o significado de todas as artes e da palavra cultura. Saber, que a inclusão social só se faz pela cultura e se incluir nela, como um simples cidadão, não como um escolhido do rei. 



Em breve falarei sobre outros projetos, arquivados, ou cujos orçamentos foram desviados.