sábado, 21 de março de 2015

JC Protestos sem fim

JC Protestos sem fim


Gilberto Sant´Anna


Os recentes  protestos e contraprotestos  na Avenida Paulista e em diversos  chãos  da pátria, constituem   movimentos  típicos da vida em sociedade. Mas,  as reações  diferem das heroicas    resistências.    Os  cristãos  resistiram  contra o regime escravista romano. O tirania do regime Feudal  provocou resistências  populares.  O confronto com o individualismo   da Revolução Francesa de 1789  alimentou    a luta   por  melhores condições   de  trabalho.  
Ao  tempo da  independência  política do Brasil, proclamada por Dom Pedro I, vozes paulistas  discordantes  exigiam  o retorno do  Brasil  à condição de  simples  colônia de Portugal. Reagiram  à mudança.
O advento da produção industrial   buscou mão de obra não escrava  em  todas as partes do mundo.   No bojo, os politizados anarquistas, cujos protestos  sacudiram São Paulo  no início do século 20.  Resistiram às pretensões do capital. A repressão ocorreu sangrenta.   
A Revolução de 30, promovida pelos  tenentes contra a corrupção entranhada na   República Velha, levou Getúlio Vargas  ao poder. O novo governo modernizou a economia e  fez valer as leis obreiras, como prometido. São Paulo reagiu e   protestou contra as mudanças. A luta pelo retorno da política do “café com leite”  atingiu o ápice  com o levante  autodenominado Revolução de 1932.
A deposição do presidente João Goulart, o Jango, não foi diferente. São Paulo  liderou a reação contra as Reformas de Base e as elites participaram e financiaram  o golpe  civil-militar de  1964,  a pretexto de  combater a corrupção e a subversão.

A História não descansa, posto em eterno movimento e transformação.  Em   1970 desponta uma nova  crise  econômica mundial.    A primeira-ministra inglesa   Margareth Thatcher e o presidente  norte-americano Ronald  Reagan,   decretaram  o neoliberalismo e a globalização. Era o sinal verde para os grandes capitais se apropriarem  dos bens e riquezas do planeta: petróleo, gás,  água, minerais  e grandes áreas cultiváveis. De quebra a permissão para invadir militarmente os   países “rebeldes”.
 Uma  bolsa de bilhões de dólares salvou  as  empresas  e os Bancos das  bolhas  do mercado.  Cresceu   o Produto Interno Bruto e o  consumo.    A economia saiu do vermelho. Destruiu-se o planeta Terra.  A renda e riqueza concentraram-se  no bolso de poucos.
Os investimentos  estatais, sem nenhum pudor,   abandonaram  o ser humano.    O salário  e as aposentadorias minguaram. A austeridade tornou-se norma. Impôs-se a privatização  das instituições e   dos serviços públicos.   O povo danou-se.
Os povos dos países neoliberais protestaram nas ruas. A resistência  substituiu os  governos de direita  pelos de esquerda. Reverteram. Provocaram a ascensão  da   extrema-direita neofascista. Na França, por exemplo,  elegeram  Nicolas Sarkozy  de direita, depois François Hollande,  dito de esquerda,  e agora namoram com a ultraconservadora família Le Pen.   

Em raros  países  a resistência venceu a política neoliberal,  como no caso da  Grécia e Islândia.  Nessa esteira  a significativa renúncia do Papa  Bento XVI, substituído pelo humanista Papa Francisco. Nos Estados Unidos da América do Norte  o Barack Obama  contra tudo e todos,  reelege-se presidente   em nome das reformas sociais.
 A  América Latina   elegeu amplamente  presidentes  que enfrentam galhardamente os apetites do  neoliberalismo, privilegiam o  interesse nacional e redistribuem a riqueza.

O  Brasil  atual  procura  safar-se  do jugo do dólar e do euro, procurando outros caminhos mais interessantes e vantajosos. O que é o Mercosul, Unasul, e Brics senão a tão sonhada independência econômica ? Temos o  direito a ser dono do  próprio nariz ou será que devemos colocar a  nossa riqueza, produzida pelo trabalho,   à disposição dos  interesses do capital internacional? Não temos competência para gerir o próprio destino?
Aliás, as  grandes indústrias não conseguem produzir competitivamente  no mercado internacional por questões de cultura administrativa, dentre as quais  a ausência de investimentos maciços  na qualificação dos recursos humanos.  A economia  por si só não tem o condão de produzir lucros.    
Como era de se esperar,   a   reação  contrária  às prioridades do   governo  da Republica apoia-se numa onda da classe média paulista, nem sempre consciente  dos riscos  sociais.
Ressurgiu  a “guerra fria”, agora   entre os partidos PT e PSDB, ambos inspirados na social democracia.   Não comungam o socialismo, nem o comunismo. O PMDB e o PSDB caíram eleitoralmente em desgraça  por não fazer a lição de casa, isto é,  as reformas  de interesse do povo.  O PT  Sofre retaliações ao  pretender  realiza-las.   
Cabe  relembrar  que  a  democracia representativa  assenta-se nos votos da classe média quase sempre identificada com  os postulados  da burguesia. 
Nada mais natural pois    que  a  marcha pelo Impeachment  da presidente Dilma Rousseff reúna 82% de  manifestantes da classe média,  a  maior parte receba salário aproximado  R$ 8.000,00 mensais e   todos  eleitores do Aécio. O demais participantes  pertencem à classe rica protagonista do “panelaço”  da  semana passada.   
Anote-se que na contramarcha pela democracia e  defesa da Petrobrás, convocada pelas entidades sindicais  e estudantis, obviamente,   aconteceu o contrário. A grande maioria era assalariada  e de  baixo poder aquisitivo.
Essa  classe média prega  a derrubada do  governo central ,  com base nas denúncias  de corrupção estampadas na primeira página da  grande mídia.  Mas,  ignoram  quais pessoas e ideologias  vão ocupar o espaço vazio.  Provavelmente  uma centena de  corruptos do Lava Jato  e contas bancárias ilegais na Suíça, contrários  à  autodeterminação dos povos e a favor da subjugação ao capital  colonizador internacional.
Não se enganem,  quando a classe média  comparece  à marcha das elites, na verdade está agindo contra si própria,  exatamente como aconteceu em Portugal, Espanha e inúmeros outros países. A austeridade não perdoou nem pobres, nem remediados.
Enfim, o Brasil  em várias épocas históricas  tentou  realizar      mudanças  sociais, políticas e econômicas. Nunca conseguiu. Sempre surge  uma reação contrária, condenando o  brasileiro ao retrocesso perpétuo. Eis o perfil da eterna crise brasileira.