domingo, 19 de abril de 2015

As disputas eleitorais de ontem e de hoje

As disputas eleitorais  de ontem e de hoje
Gilberto Sant´Anna
No período imediatamente depois  à proclamação da República   aconteceu a deflagração  da Primeira  Grande Guerra, quando  o Brasil declarou neutralidade, isto é não participou oficialmente do conflito, “(...) uma vez que  o país possuía importantes transações  comerciais – e dívidas -  com os dois lados conflitantes (...)” Revista de História da Biblioteca Nacional, nº 101, fevereiro de 2014, pag. 64.  
Nem por isso a paz grassou entre os homens, mulheres e crianças de boa vontade. Ocorreram inúmeras escaramuças  em solo pátrio,  encabeçadas pelo movimento social  de caráter político-militar   batizado de “TENENTISMO”.
Os jovens militares eram   conservadores,  autoritários e   adeptos   do positivismo, isto é, típicos revolucionários antimonarquistas do  período denominado  “ República das Oligarquias Cafeeiras”.  Combatiam o “coronelismo”.   Lutavam por reformas políticas e sociais, pela moralidade política, pela prisão dos corruptos,  pelo fim do voto de cabresto, pela reforma do sistema educacional público e  pelo  voto secreto nas eleições.  Durante a  Revolução Paulista tenentista  de 1924  as famílias paulistanas refugiaram-se  nos sítios  ao redor da capital, inclusive em Atibaia, onde as notícias chegavam  quentes como  brasas.  A região bragantina acompanhou as tropas de  Isidoro Dias Lopes.  Destacamos os heróis Alberto Stramiéri, de Canedos,  e Alexandre Zanoni,  de Jarinu.
Claro,  o quadro  desabonador  influenciou a vida política nacional.  As façanhas   atribuídas aos  “coronéis”  são vastas e caricatas. As artimanhas tornaram-se  impagáveis. A legislação eleitoral, editada da pelos compadres,    permitia  todo tipo de fraude. Por exemplo, o eleitor carregava  no bolso a  cédula  a ser depositada na urna.
Os candidatos treinavam os correligionários,  na maioria residentes na zona rural,  para dar eficácia ao exercício do voto. Montavam cabines e  urnas simuladas. A prática minimizava os medos e supria o pouco manejo com os hábitos citadinos.  No dia aprazado os votantes eram transportados  para local próximo das secções instaladas pela Justiça.  O material de votação, adrede preparado, restava  escondido  nos  bolsos internos da roupa. As mulheres utilizavam as bolsas e o sutiã.   Durante o percurso até a urna, “boqueiros”  diversos trocavam os papéis  trazidos às mãos. Na hora de sufragar sacava-se  a cédula entranhada. Dentro da cabine de pano preto, envelopava-se o “voto secreto”, sob o olhar vitorioso do cabo eleitoral acompanhante. 
Cumprido o dever cívico o votante  e familiares  faziam jus à “gororoba” ou “boia”, ou seja,  à alimentação à  base de arroz, feijão, macarrão, ensopado de carne com batata,  farinha e refrigerante, tudo servido à vontade  nos comitês partidários. Os candidatos também ali comiam em  solidariedade e agradecimento. Depois os eleitores  eram devolvidos aos sítios, geralmente  arranjados em cima de um caminhão de carga. 
O farmacêutico  e vereador Bento Marcondes Escobar  exibia logo à entrada da farmácia,  na rua José Alvim,  um quadro  dos “18 do Forte”, certamente    orgulhoso das  propostas e desabafos   tenentistas.  Talvez,  por  não cabalar votos ou usar de expedientes espertos, sempre  exerceu mandato eletivo na condição de suplente.  
Bento Escobar, como era conhecido, pertenceu ao Partido Democrático, ao lado de Álvaro Correia Lima, major Sebastião Teodoro Pinto, Sílvio Russomano e José Herculano Bueno e tantos outros. Eram da oposição aos Alvins. 
É possível compararmos  eleitoralmente esse período republicano com o atual? As questões nas primeiras décadas do século XXI muito se assemelham  com as do engatinhar do liberalismo,   há cem anos.  Tudo pouco mudou.  Hoje as grandes massas são igualmente manobráveis, embora  eletronicamente,   não obstante ainda existam os cabos eleitorais a laçar eleitores nas quebradas da miséria.
A grande mídia, de propriedade do capital  hegemônico, elege os “representantes  do povo”, segundo os  próprios apetites. Manipulam, como faziam os “coronéis”,  apesar de   nem sempre o resultado das urnas  respeitar os interesses da  riqueza.
Nos Estados Unidos da América  os poderosos apoiaram  o   Mitt Romney que perdeu a presidência da República para  o reeleito Barack Obama.  Na  América Latina a burguesia jogou todas as fichas  no Henrique Caprilles da Venezuela  e no Aécio Neves do Brasil. Também perderam.  O fato se repetiu em diversas nações abaixo do Equador.
Pesquisas  foram feitas para se entender o  porquê.  Descobriram a pólvora sem fazer estrondo.  Enquanto os candidatos impressos em dólar  propunham reformas na contramão dos interesses das classes menos favorecidas (mudanças significativas  na Previdência Social e nas Leis Trabalhistas, do calibre da terceirização dos serviços públicos e privados),  os vencedores souberam interpretar e atender  as  angústias populares.
No caso do Brasil, a austeridade (arrocho)  capitaneada pela  alemã Ângela Merkel  não foi implantada.   Ao contrário, criou-se programas  contra a fome e acesso à escolaridade.  Deu-se uma banana  para a agiotagem do FMI  e  outras siglas especulativas e maléficas. Eleição perdida,  os magnatas agora demonstram impaciência  e não desejam esperar  pela próxima disputa de a 2018.  Chacoalham a democracia  para criar condições à campanha das INDIRETAS JÁ.  

O fato não é novidade. Os regimes ditatoriais  ocupam largo espaço nos livros de história. Nessa hipótese, aguarda-se para breve  a instalação da barbárie política e econômica ardendo  no lombo dos brasileiros.  As riquezas nacionais (petróleo, água e grandes áreas férteis, minerais etc. ) cairão em poder da pirataria internacional  com bandeira  já fincada  no asfalto da Avenida Paulista.  Só a aliança Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o BRICS,  pode salvar a humanidade do caos. Publicado  na edição de 18-04-15, no JC Atibaia (www.jcatibaia.com.br)